Raízes Escolásticas da Fenomenologia?

As Raízes Escolásticas da Fenomenologia: Heidegger entre Duns Scotus e Edmund Husserl

Yuri Fagundes 

A formação intelectual do jovem Martin Heidegger se dá num ponto de tensão singular entre duas tradições que, à primeira vista, pertencem a mundos distintos: a escolástica medieval, particularmente na linhagem de João Duns Scotus, e a fenomenologia nascente de Edmund Husserl. O que torna essa convergência possível não é um mero ecletismo histórico, mas a descoberta de um problema comum: a necessidade de resgatar a objetividade da verdade contra as reduções relativistas do pensamento moderno, sobretudo na forma do psicologismo. 


A chamada gramática especulativa da tradição escotista representa um dos momentos mais sofisticados da tentativa medieval de pensar a linguagem para além de sua dimensão empírica. Longe de ser um simples conjunto de regras convencionais, a gramática é concebida como reflexo de uma ordem ontológica. A clássica tríade — modus essendi, modus intelligendi e modus significandi — exprime essa estrutura: o modo de ser das coisas funda o modo como elas são compreendidas pelo intelecto, e este, por sua vez, fundamenta o modo como são significadas na linguagem. A linguagem, portanto, não é arbitrária; ela é, por assim dizer, o espelho do ser. Nesse sentido, a gramática é “especulativa” porque reflete (speculum) a estrutura da realidade, e não simplesmente os hábitos contingentes de uma comunidade linguística.


Essa concepção implica uma posição decididamente antirrelativista e antipsicologista. O significado não depende das variações da mente individual, nem das flutuações históricas da cultura; ele está ancorado em estruturas universais que têm sua raiz no próprio ser. A linguagem, ao expressar o pensamento, e o pensamento, ao apreender o ser, participam de uma ordem que transcende o domínio do empírico. É precisamente esse horizonte que permite compreender por que Heidegger, em sua fase inicial, percebe uma afinidade profunda entre a escolástica escotista e o projeto fenomenológico.

Com efeito, a crítica de Husserl ao psicologismo, desenvolvida nos Prolegômenos à Lógica Pura, pode ser lida como uma rearticulação moderna, em chave rigorosamente metodológica, dessa mesma intuição fundamental: a de que a verdade não pode ser reduzida a fatos psicológicos. O psicologismo, ao pretender fundamentar a lógica em generalizações empíricas sobre o funcionamento da mente humana, incorre numa confusão categorial decisiva. Ele mistura o plano dos atos psíquicos — que são temporais, contingentes e individuais — com o plano dos conteúdos ideais — que são atemporais, necessários e universais. Pensar que a validade de uma proposição depende do modo como ela é efetivamente pensada é ignorar que o próprio erro é possível apenas porque há uma norma que o transcende.

Husserl mostra, ademais, que o psicologismo conduz inevitavelmente ao relativismo: se as leis lógicas fossem derivadas da constituição psicológica, então diferentes sujeitos ou espécies poderiam ter lógicas distintas, e a verdade deixaria de ser universal. Mais ainda, o psicologismo se autodestrói performativamente, pois ao afirmar que toda verdade é relativa, pretende enunciar uma proposição de validade universal, traindo assim sua própria tese. A consequência é clara: a lógica não pode ser uma ciência empírica da mente; ela deve ser compreendida como um domínio de idealidades normativas que orientam o pensamento sem se reduzir a ele.

É nesse ponto que a convergência com a gramática especulativa se torna mais evidente. Assim como os escolásticos sustentavam que as estruturas da linguagem refletem as estruturas do pensamento e, em última instância, do ser, Husserl insiste que as leis lógicas possuem uma validade ideal independente dos atos psicológicos que as apreendem. Em ambos os casos, trata-se de afirmar uma ordem de inteligibilidade que não se deixa dissolver no fluxo do empírico. A diferença, evidentemente, reside no método: enquanto a escolástica ancora essa ordem numa metafísica do ser, Husserl busca fundamentá-la numa análise fenomenológica da consciência intencional. Ainda assim, o inimigo comum — o relativismo — confere unidade a essas abordagens.

Para o jovem Heidegger, essa dupla herança abre um caminho decisivo. Ao reconhecer na fenomenologia husserliana uma reativação, sob novas condições, da intuição medieval de uma objetividade do sentido, ele encontra os recursos para enfrentar o que percebia como a crise do pensamento moderno: a dissolução da verdade em historicidade, subjetividade ou mera facticidade. A linguagem, o pensamento e o ser não são domínios desconexos, mas dimensões de uma mesma estrutura originária. Ainda que Heidegger venha posteriormente a abandonar o vocabulário escolástico e a reformular radicalmente a questão da verdade como aletheia — desvelamento —, permanece em sua obra a marca desse momento inicial: a recusa de reduzir o verdadeiro ao psicológico, e a busca por um fundamento mais originário da significação.

Assim, tanto a gramática especulativa quanto a crítica husserliana ao psicologismo convergem numa tese essencial: a de que o sentido não é um produto da mente, mas algo que a precede e a orienta. Contra o empirismo relativista, ambas afirmam que há uma ordem de validade que não depende do acaso das experiências individuais. E é precisamente nesse entrelaçamento entre linguagem, pensamento e ser que se delineia o horizonte no qual Heidegger iniciará sua própria e decisiva interrogação filosófica.

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