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Entre a liberdade e a ruína: a antropologia de Dostoiévski entre Ortodoxia e Reforma

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Yuri Fagundes A tradição cristã conhece, ao longo de sua história, diferentes modos de descrever a condição humana após a queda. Entre o Oriente ortodoxo e o Ocidente reformado, delineiam-se duas ênfases distintas: de um lado, a persistência da imagem divina e a possibilidade de cooperação com a graça; de outro, a corrupção radical de todas as faculdades humanas e a necessidade absoluta da intervenção soberana de Deus. À primeira vista, a obra de Fiódor Dostoiévski, profundamente enraizada na espiritualidade ortodoxa russa, pareceria alinhar-se naturalmente à primeira dessas tradições. No entanto, uma análise mais atenta revela uma tensão mais complexa: a antropologia existencial que emerge de seus romances parece, em muitos aspectos, aproximar-se do diagnóstico reformado da condição humana, especialmente no que diz respeito à divisão interior e à autodestrutividade do sujeito. Essa aparente dissonância não deve ser entendida como contradição, mas como sinal de uma profundidade literár...