HEIDEGGER E A UNIDADE ANALÓGICA SUBJACENTE
Yuri Fagundes
Visto que a intencionalidade revela o ser do ente, a fenomenologia se tornou, para Heidegger, apenas um método para explorar mais profundamente a questão não resolvida da metafísica sobre a essência ou o sentido do ser, ou seja, sobre a unidade analógica subjacente a todos os diversos modos de ser do ente.
No entanto, dada sua leitura fenomenológica da tradição, Heidegger então reformulou a questão sobre o sentido do ser naquela sobre a essência da correlação fenomenológica, isto é, sobre a unidade analógica subjacente a todos os modos possíveis nos quais os entes podem se fazer presentes e, assim, serem humanamente apropriados.
1. O ponto de partida: a intencionalidade e o problema herdado da metafísica
A fenomenologia husserliana havia mostrado que toda consciência é consciência de algo, isto é, toda vivência é intencional. Isso permitiu a Heidegger compreender que o ente só é enquanto aparece em um horizonte de sentido para o Dasein. Assim, a intencionalidade revela que o ser do ente não é algo simplesmente “dado”, mas manifesto no modo de aparecer, no modo de se tornar acessível.
Contudo, Heidegger percebeu que, embora Husserl tenha tematizado o aparecer do ente, ele ainda não investigou o que possibilita esse aparecer — ou seja, a condição ontológica da própria correlação entre sujeito e objeto. É justamente aí que entra a questão da unidade analógica do ser.
2. A unidade analógica do ser: não um conceito genérico, mas um horizonte articulador
Na tradição metafísica, desde Aristóteles, dizia-se que o “ser” se diz de muitas maneiras (to on legetai pollachôs). O ser é “análogo”: não se aplica aos entes de modo unívoco (como um mesmo predicado para todos), nem de modo equívoco (sem relação alguma), mas analógico, isto é, os diversos modos de ser — ser-substância, ser-acidente, ser-ato, ser-potência, etc. — participam de uma unidade proporcional de sentido.
Heidegger retoma essa noção, mas de forma fenomenológica e transcendental. Ele pergunta:
Qual é a unidade de sentido que articula e torna possíveis todos os modos de presença dos entes?
Essa unidade não é um gênero comum (como “ser” enquanto conceito), mas uma estrutura de abertura — aquilo que torna possível que os entes se manifestem de diversos modos (como coisa natural, ferramenta, número, ser vivo, obra de arte etc.), sem que esses modos se reduzam uns aos outros.
Portanto, a unidade analógica subjacente consiste no horizonte prévio de desvelamento (aletheia) em que os entes podem se apresentar de modos distintos. Esse horizonte é o sentido do ser.
3. O deslocamento de Heidegger: da unidade do ser à unidade da correlação
Quando Heidegger reformula a questão do ser como questão pela essência da correlação fenomenológica, ele quer dizer que o “ser” não é um objeto, mas o jogo de co-pertença entre o aparecer e o que aparece, entre o ente e aquele a quem o ente se manifesta — o Dasein.
A unidade analógica, então, não está “no” ente nem “na” consciência, mas na estrutura de abertura que os põe em correlação. Em Ser e Tempo, isso aparece como a estrutura de ser-no-mundo; nas obras posteriores, como o claro do ser (Lichtung).
Assim, o “ser” é a unidade analógica de todas as modalidades de presença — presença prática, teórica, estética, técnica, religiosa, etc. — porque é o mesmo horizonte de desvelamento que as torna possíveis, embora cada uma manifeste o ente de modo distinto.
4. Conclusão
Portanto, a unidade analógica subjacente é, em Heidegger, a unidade estrutural da abertura do ser, que permite que os entes se deem de múltiplas maneiras sem perderem sua pertença a um mesmo horizonte ontológico.
É a analogia transcendental do desvelamento, o campo unificador de todos os modos de presença — o ser enquanto tal —, entendido agora não como conceito, mas como evento fenomenológico de manifestação (Ereignis).
YURI FAGUNDES
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