HEIDEGGER: A EVOLUÇÃO DA UNIDADE ANALÓGICA DO SER ATÉ O "EREIGNIS"
Yuri Fagundes
1. Em Ser e Tempo (1927): o ser como sentido articulado pelo Dasein
No primeiro Heidegger, a unidade analógica do ser é compreendida a partir da estrutura existencial do Dasein.
A pergunta por “o que é o ser” é reformulada como:
“Qual é o sentido do ser, isto é, o que torna possível que o ente se manifeste como ente para nós?”
Essa possibilidade está fundada no fato de que o Dasein é ser-no-mundo, isto é, já sempre aberto a um mundo no qual os entes aparecem em diferentes modos de ser.
Estrutura dessa unidade:
O Dasein é o ente que compreende o ser — o lugar da manifestação.
O mundo é o horizonte de significância dentro do qual os entes podem aparecer.
A abertura do Dasein (o “claro”) unifica todos os modos de ser dos entes — o à mão (Zuhanden), o presente (Vorhanden), o vivente, o outro Dasein, etc.
Em outras palavras:
A unidade analógica do ser é, aqui, o horizonte de sentido articulado pelo Dasein enquanto abertura ao mundo.
O Dasein não cria o ser, mas o abre: o ser é compreensível apenas a partir de sua clareira existencial.
Por isso, Heidegger diz:
“O ser é aquilo que só pode ser entendido a partir do tempo.”
O tempo — como horizonte transcendental — é o princípio de analogia que unifica todos os modos de ser.
2. A virada (Kehre): o ser não é mais articulado pelo Dasein, mas o Dasein é apropriado pelo ser
Depois de Ser e Tempo, Heidegger percebeu que o modo de exposição ainda deixava o ser dependente do homem.
A analogia do ser, então, passa a ser pensada não a partir do Dasein, mas a partir do próprio ser enquanto doação (Ereignis).
Essa mudança começa em textos como Da Essência da Verdade (1930), Da Essência do Fundamento (1929), e se radicaliza em A Carta sobre o Humanismo (1946) e Tempo e Ser (1962).
3. Pensamento tardio: o ser como Lichtung e Ereignis
Agora, a unidade analógica do ser é pensada não mais como uma estrutura transcendental (centrada no Dasein), mas como uma dinâmica ontológica de desvelamento (aletheia) em que o próprio homem é tomado como parte do jogo do ser.
a) A Lichtung (clareira)
A clareira é o “campo aberto” no qual algo pode se mostrar ou se ocultar.
Ela não é produzida pela consciência, mas é o espaço originário de manifestação que também nos inclui.
O ser, como Lichtung, é o mesmo horizonte que, analogicamente, possibilita todos os modos de aparecer:
natureza, arte, técnica, pensamento, poesia, culto, etc.
Cada época histórica é, para Heidegger, uma configuração analógica particular da clareira, isto é, um modo de o ser se desvelar.
b) O Ereignis (apropriação, evento)
No pensamento do Ereignis, Heidegger radicaliza a analogia: o ser e o homem não estão em relação de sujeito-objeto, mas em uma co-pertença originária (Zugehörigkeit).
O Ereignis é o acontecimento da analogia — o evento em que o ser e o homem se “apropriam” um do outro, tornando-se correspondentes.
Ele é o princípio unificador que substitui tanto a ontologia da substância quanto o transcendentalismo da consciência.
A unidade analógica do ser é agora pensada como o jogo recíproco entre presença e ausência, desvelamento e velamento — o ritmo do Ereignis.
4. Conclusão geral
A “unidade analógica subjacente” que antes servia para designar o horizonte comum de manifestação dos entes se torna, no pensamento tardio de Heidegger, a própria dinâmica do ser enquanto acontecimento de doação.
Em suma:
Em Ser e Tempo, a analogia é estrutural e transcendental: todos os modos de ser se unificam no horizonte temporal do Dasein.
Depois da Kehre, a analogia é dinâmica e onto-histórica: todos os modos de presença derivam do mesmo evento de desvelamento (Ereignis) que, em cada época, dá forma ao aparecer do ser.
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