Os Sacramentos na Ortodoxia - Parte 4 e 5

 7.4 - A Penitência

Uma criança Ortodoxa recebe comunhão desde a infância. Assim que ela tem idade para saber a diferença entre certo e errado e a compreender o que é pecado, provavelmente com a idade de seis ou sete anos, ele deve ser levado para receber outro sacramento: Arrependimento e Penitência, ou Confissão (em Grego, Metanoia ou exomologisis). Através desse sacramento, pecados cometidos depois do Batismo são perdoados e o pecador é reconciliado com a Igreja: Por essa razão esse sacramento é freqüentemente chamado de "Segundo Batismo." Ao mesmo tempo o sacramento age como cura para a alma, porque o padre não dá só absolvição mas também conselho espiritual. Desde que todo pecado é pecado não só contra Deus mas também contra nosso vizinho, contra a comunidade, a confissão e a disciplina penitencial na Igreja dos primeiros tempos, era um assunto público. Mas com o passar dos séculos tanto no oriente quanto no ocidente a confissão no Cristianismo tomou a forma de uma conferência "privada" entre o padre e o penitente sozinho. O padre é estritamente proibido de revelar para qualquer terceira pessoa o que ele ouviu em confissão.

Na Ortodoxia a confissão é ouvida, não em um confessionário fechado com uma tela separando confessor e penitente, mas em qualquer parte conveniente da Igreja, usualmente no espaço imediatamente defronte à Iconostase; as vezes o padre e o penitente ficam por detrás de um anteparo, ou pode existir uma sala especial na Igreja se parada para confissões. Enquanto no ocidente o padre senta e o penitente se ajoelha, na Igreja Ortodoxa ambos ficam em pé (ou às vezes os dois sentam). O penitente fica de frente para uma mesa especial onde são colocados, a Cruz e um ícone do Salvador ou o Livro do Evangelho; o Padre fica ligeiramente de lado. Esse arranjo exterior enfatiza mais claramente que o sistema ocidental, que na confissão não é o padre mas Deus que é o Juiz, enquanto o padre é só uma testemunha e ministro de Deus. Esse ponto é reforçado pelas palavras que o padre diz imediatamente antes da confissão propriamente:

"Veja, meu filho, Cristo está aqui invisivelmente e recebe tua confissão. Por isso não fique envergonhado nem temeroso; não esconda nada de mim, mas diga-me sem hesitação tudo que tiver feito; e assim tu terás perdão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vê, este santo ícone de Jesus Cristo está diante de nós: E eu sou só uma testemunha, levando em testemunho para Ele, todas as coisas que tu tiveres para me dizer. Mas se tu esconderes qualquer coisa de mim, tu terás pecado maior Tome cuidado, portanto, do contrário será como se tivesse ido a um médico e saísse não curado!" (essa exortação é encontrada nos livros eslavônicos mas não nos Livros Gregos).

Depois disso o padre questiona o penitente sobre seus pecados e dá-lhe conselhos. Quando o penitente tiver confessado tudo, ele ajoelha ou abaixa a sua cabeça, e o padre, colocando sua estola (epitrachilion) sobre a cabeça do penitente e pondo a sua mão sobre a estola, diz a oração de absolvição. Nos Livros Gregos a fórmula de absolvição é suplicatória (i.e. na terceira peço, "Que Deus perdoe..."), nos Livros Eslavônicos é indicativa (i.e. na primeira pessoa, "Eu, perdôo...").

A fórmula Grega diz:

«O que você tenha dito para minha humilde pessoa,
e o que você tenha falhado em dizer,
seja por ignorância ou esquecimento,
o que quer que seja,
que Deus te perdoe neste mundo e no próximo...
Não tenha mais ansiedade; vá em paz!
Em eslavônico existe esta fórmula:
"Que Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo,
pela graça e generosidade de Seu amor pelo homem,
Te perdoe, meu filho (nome),
todas as tuas transgressões.
E eu, um indigno padre,
pelos poderes que por Ele me foram dados,
te perdôo e te absolvo de todos os teus pecados.»

Essa fórmula usando a primeira pessoa, EU, foi originalmente introduzida nos Livros Ortodoxos sob influência Latina por Pedro Moghila na Ucrânia, e foi adotada na Igreja Russa no século dezoito.

O padre pode, se ele acha aconselhável, impor uma penitência (epitimion), mas isso não é uma parte essencial, ou sacramento, e é freqüentemente omitida. Muitos Ortodoxos tem um "Pai Espiritual" especial, não necessariamente seu padre paroquial, a quem eles procuram regularmente para confissão e aconselhamento espiritual (na Ortodoxia não é inteiramente desconhecido um leigo agir como pai espiritual; mas nesse caso, enquanto ele ouve a confissão, dá conselhos, e assegura ao penitente o perdão de Deus, ele não pronuncia a oração de absolvição sacramental, mas manda o penitente para um padre). Não há na Ortodoxia uma regra estrita que estabeleça com que freqüência se deve confessar; os Russos tendem a confessar mais freqüentemente que os Gregos. Aonde a comunhão não freqüente prevalece — por exemplo quatro ou cinco vezes por ano — espera-se que os fiéis confessem antes de cada comunhão; mas em círculos onde a comunhão freqüente foi estabelecida, o padre não necessariamente espera que seja feita confissão antes de cada comunhão.

7.5 - As Ordens Sacras

Existem três "Ordens Maiores" na Igreja Ortodoxa, Bispo, Presbítero, Diácono; e duas "Ordens Menores," Subdiáconos e Leitores (existiram no passado outras Ordens Menores, mas no presente, com exceção dessas duas, todas caíram largamente em desuso). Ordenações para as Ordens maiores sempre ocorrem durante o correr da Liturgia, e deve sempre ser feita individualmente (O Rito Bizantino, diferentemente do Romano, estabelece que não mais de um Diácono, um Presbítero e um Bispo podem ser ordenados em uma única Liturgia). Somente um Bispo tem poder para ordenar (em caso de necessidade um Arquimandrita ou Arcipreste, agindo como delegado do Bispo, pode ordenar um Leitor) e a sagração de um Bispo deve ser feita por três ou ao menos dois Bispos, nunca por um Bispo só: desde que o episcopado é de caráter "colegial," uma consagração episcopal é conduzida por um "colégio" de Bispos. Uma ordenação, enquanto feita por um Bispo, também requer o consentimento de todo Povo de Deus; assim num ponto particular do ofício a congregação reunida aclama a ordenação gritando "Axios!" ("Ele é Digno!"; O que acontece se a Assembléia grita "Anaxios!" "Ele é Digno!"). Isto não esta muito claro. Em muitas ocasiões em Constantinopla ou na Grécia durante o século vinte a congregação de fato expressou sua desaprovação desse modo, no entanto sem efeito. Mas alguns afirmam que, de qualquer modo em teoria, se os leitos expressam seu dissenso, a ordenação ou consagração não pode ser feita).

Os Presbíteros e Diáconos Ortodoxos são divididos em dois grupos distintos, os "Brancos" ou clero casado, e os "Pretos" ou monásticos. Os ordenados devem decidir antes da ordenação a que grupo eles querem pertencer, pois é uma regra estrita que ninguém pode casar depois de sua ordenação para uma ordem Maior. Aqueles que querem se casar devem portanto fazê-lo antes de serem ordenados Diáconos. Aqueles que não querem se casar devem se tornar Monges antes de sua ordenação; mas na Igreja Ortodoxa hoje em dia existe um certo número de clero celibatário que não fizeram formalmente os votos monásticos. Esses Padres celibatários, no entanto, não podem a posteriori mudar de idéia e decidir se casar. Se a mulher de um Padre morre, ele não pode se casar de novo.

Como regra o clero paroquial da Igreja Ortodoxa é casado, e um Monge só é indicado para algum cargo em uma Paróquia por razões excepcionais (de fato nos dias presentes particularmente na Diáspora os Monges são freqüentemente feitos encarregados de Paróquias. Muitos Ortodoxos, lamentam esse afastamento da prática tradicional. Bispos são escolhidos exclusivamente do clero Monástico. (Isto tem sido regra desde pelo menos o século seis; mas nos tempos primitivos existiram muitos exemplos de Bispos Casados. Por exemplo, o próprio São Pedro), apesar de um viúvo poder ser feito Bispo se ele aceitar os votos Monásticos. Tal é o estado do Monasticismo em muitas partes da Igreja Ortodoxa hoje em dia, que não é sempre fácil achar candidatos adequados para o episcopado, e alguns Ortodoxos começam a se perguntar se a limitação de Bispos provirem do clero Monástico não seria contra indicada sob as condições modernas. No entanto seguramente a verdadeira solução não será mudar a Regra presente que Bispos devem ser Monges, mas sim revigorar a própria vida monástica.

No início da Igreja o Bispo era eleito pelo Povo da Diocese, clero e leigos juntos. Na Ortodoxia de hoje é usualmente o Sínodo de cada Igreja Autocéfala que indica Bispos para tronos vacantes; mas em algumas Igrejas, Antioquia por exemplo, e Chipre, um sistema modificado de eleição ainda existe. O Concílio de Moscou de 1917-1918 estabeleceu que daí em diante os Bispos na Igreja Russa deveriam ser eleitos pelo clero e pelos Leigos; essa regra é seguida pelo grupo de Russos de Paris e pela OCA, mas as condições tornaram a aplicação dessa regra impossível dentro da União Soviética.

A ordem dos Diáconos é muito mais proeminente na Igreja Ortodoxa que nas comunidades ocidentais. No Catolicismo romano antes do Vaticano 2º o Diácono tinha se tornado simplesmente num estágio preliminar no caminho do Presbiterado, mas na Ortodoxia ele permaneceu um cargo permanente, e muitos Diáconos tem a intenção de nunca virar Presbítero. No ocidente de hoje a parte do diácono na Missa Solene é usualmente feita por um Presbítero, mas na Liturgia Ortodoxa ninguém que não seja um Diácono de fato pode executar as funções Diaconais.

A Lei Canônica estabelece que ninguém pode tornar-se Presbítero antes da idade de trinta anos nem Diácono antes da idade de vinte e cinco anos, mas na prática essa regra esta sendo relaxada.

7.5.1 - Uma nota sobre títulos eclesiásticos

Patriarca: O título usado pelos chefes de algumas Igrejas autocéfalas. Os chefes das outras Igrejas são chamados de Arcebispos ou Metropolitas.

MetropolitaArcebispo: Originalmente um Metropolita era o Bispo da capital de uma província, enquanto Arcebispo era mais um título geral de honra, dado para Bispos de especial eminência. Os Russos ainda usam os títulos mais ou menos na forma original; mas os gregos (exceto em Jerusalém) agora dão o nome de Metropolita para todo Bispo diocesano, e chamam pelo título de Arcebispo aqueles que nos tempo anteriores eram chamados de Metropolitas. Assim entre os Gregos um Arcebispo agora está acima de um Metropolita, mas entre os Russos o Metropolita é a posição mais alta.



Arquimandrita: Originalmente um Monge encarregado com a supervisão espiritual de vários Mosteiros, ou o superior de um Mosteiro de importância especial. Atualmente usado simplesmente como título de honra para Presbíteros-Monges de distinção.

Higumenos: Entre os Gregos, o Abade de um Mosteiro. Entre os Russos, um título de honra para Presbiteros-Monges (não necessariamente Abade). Um Higumenos Russo fica abaixo de um Arquimandrita.

Arcipreste ou Protopapa: Título de honra dado a Presbítero não Monástico; equivalente a Arquimandrita.

Hieromonge: Um Presbítero Monge. Arcediago: Um título de honra dado para Diáconos Monges. (no Ocidente o Arcediago é hoje em dia um Presbítero, mas na Igreja Ortodoxa ele ainda é diácono como na Igreja Primitiva).

Protodiácono: Título de honra dado para Diáconos que não são Monges.



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